Por Nayara Campos
O ArejaBus, sistema de climatização natural desenvolvido por alunos e professores do Instituto Federal da Bahia (IFBA), tem ganhado destaque nacional ao oferecer uma solução de baixo custo para reduzir o calor e melhorar a ventilação em ônibus urbanos. A tecnologia, baseada em duas patentes concedidas ao IFBA e licenciada para a spin-off Areja, criada pelos inventores, venceu o Prêmio FORTEC 2025 na categoria Patente Concedida ou Pedido de Patente, concorrendo pela região Nordeste do Brasil.
O diferencial que garantiu a premiação do caso está diretamente ligado ao impacto social e à aderência da solução a um problema real do transporte coletivo brasileiro. Segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), o ônibus é responsável por 31% dos deslocamentos urbanos no Brasil e atende majoritariamente às classes C, D e E.
A última edição da Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana mostra ainda que quase 30% dos usuários deixaram de usar o modal nos últimos anos, principalmente por falta de conforto térmico, e grande parte afirma que voltaria se as condições internas fossem melhores. O ArejaBus responde a essa demanda, oferecendo ventilação contínua, melhoria da qualidade do ar e alívio térmico sem consumo elétrico.
Para Leonardo Santiago, um dos inventores e sócio-diretor da Areja, a solução é fruto tanto de sua vivência como passageiro quanto da percepção de que o problema exige respostas práticas e acessíveis. “Em um dia de chuva, a caminho da faculdade, a BR estava completamente engarrafada. O ônibus ficou lotado, o ar quente acumulou e o ambiente se tornou quase uma sauna”, relembra o inventor. “Nesse trajeto, vi uma senhora passando mal por causa do calor. Aquilo me impactou profundamente e, a partir desse dia, comecei a buscar soluções que pudessem melhorar de forma simples, eficiente e acessível a experiência de quem depende do ônibus todos os dias”.
Impactos da solução
O ArejaBus combina dois dispositivos patenteados: venezianas que permitem a entrada controlada de ar externo e um exaustor tipo Venturi que succiona o ar quente interno. O resultado é uma ventilação contínua, sem consumo de energia elétrica, capaz de reduzir em média até 4 °C a temperatura interna do veículo, e Santiago explica que os benefícios vão além do conforto térmico. “O sistema mantém a qualidade do ar em bons níveis, contribuindo para evitar a proliferação de vírus e bactérias, tudo isso sem aumentar o consumo de combustível e, consequentemente, sem elevar as emissões de poluentes”.
Os testes e implantações realizados em cidades como Bauru, Petrópolis, Fortaleza, Osasco e Salvador confirmaram o potencial da tecnologia. Além disso, dados técnicos apresentados pelo IFBA mostram que o dispositivo reduz cerca de 260 g de CO₂ por quilômetro rodado por ônibus, o que pode resultar em toneladas de emissões evitadas ao longo de um ano de operação.
Além dos benefícios mensuráveis, o reconhecimento do setor reforça o diferencial da solução, que é multipremiada no Brasil e no exterior, com as duas patentes já concedidas pelo INPI reforçando sua originalidade e relevância tecnológica.
Proteção intelectual, transferência e papel do NIT
Segundo Marcelo Santana, chefe do Departamento de Inovação, o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do IFBA acompanhou o projeto desde as primeiras etapas. “Asseguramos que todo o percurso, da prova de conceito ao licenciamento, fosse realizado de forma profissional, alinhada à legislação de inovação e às melhores práticas institucionais, resultando em um case exemplar de inovação from lab to market”.
A tecnologia do ArejaBus é respaldada por duas patentes concedidas pelo INPI, que estruturam os dispositivos centrais do sistema. A primeira é a BR 10 2020 015506 7, referente ao “Dispositivo de Admissão de Ar por Venezianas Estáticas”, depositada em 30 de julho de 2020 e concedida em 8 de setembro de 2021. A segunda é a BR 10 2019 000139 9, que protege o “Dispositivo de Exaustão Tipo Venturi”, com depósito em 4 de janeiro de 2019 e concessão em 8 de dezembro de 2020. Ambas compõem a base técnica que permitiu transformar o conceito inicial em um produto robusto, replicável e com forte diferencial competitivo.
O NIT orientou os inventores sobre a patenteabilidade, realizou buscas de anterioridade, apoiou a redação dos pedidos, conduziu o trâmite prioritário no INPI e articulou a negociação do contrato de licença com a startup Areja, permitindo que estudantes protagonizassem um processo até então inédito na instituição, que envolveu proteção, transferência e início de uma spin-off, a Areja, fundada em 2020.
Santana ressalta ainda que o caso é exemplar por unir formação e pesquisa aplicada. “O ArejaBus representa a transformação real de pesquisa acadêmica em negócio. A tecnologia mostra que é possível gerar impacto ambiental e social, e cerca de 90% dos passageiros relatam maior satisfação com a ventilação e temperatura”.Com potencial de replicação para os mais de 300 mil ônibus urbanos da frota nacional, o ArejaBus demonstra como pesquisa pública, criatividade técnica e articulação institucional podem gerar soluções de baixo carbono e com alto impacto social. A tecnologia mostra que a inovação brasileira tem potência para transformar o cotidiano, gerar negócios, proteger vidas e fortalecer a mobilidade sustentável em todo o país.

