Por Nayara Campos
Jogos digitais deixaram de ser apenas entretenimento para se tornarem ferramentas relevantes de aprendizagem. No Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), essa premissa deu origem ao Flora, um jogo digital desenvolvido com foco em educação em direitos humanos e conscientização ambiental, voltado a estudantes entre 10 e 13 anos da rede pública da Bahia.
Ao transformar aprendizado em experiência, o Flora se destacou no Prêmio FORTEC como um exemplo de inovação social com base em propriedade intelectual, sendo vencedor na modalidade Inovação Social ou Ambiental com Base em PI, pela região Nordeste.
Desenvolvido no Campus Lauro de Freitas, no âmbito do curso superior de Tecnologia em Jogos Digitais, o Flora foi criado por estudantes sob coordenação do professor France Arnaut e registrado em agosto de 2024 como Programa de Computador no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Para além de um recurso pedagógico, o jogo propõe uma experiência imersiva para discutir os Artigos 3º e 25º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, abordando temas como direito à vida, segurança alimentar e preservação ambiental.
Segundo Arnaut, a proposta teve início na etapa de formação dos alunos, com um objetivo claro. “O Flora surgiu no Projeto Integrador do curso de Jogos Digitais do IFBA, sob minha coordenação. A proposta do jogo é ser simples e acessível, mas capaz de estimular reflexão e responsabilidade socioambiental”, explica o professor.

Impactos da tecnologia
O Flora pertence ao gênero Metroidvania, caracterizado por exploração, narrativa complexa e progressão não linear, uma escolha pouco comum em jogos educativos. No game, o jogador controla Foia, uma ervilha que vive em um mundo pós-apocalíptico moldado pela degradação ambiental. A narrativa funciona como instrumento para introduzir conceitos de sustentabilidade e direitos humanos de forma orgânica, sem recorrer a abordagens didáticas tradicionais.
Ao utilizar a gamificação como metodologia de ensino, o projeto contribui para tornar o aprendizado mais atraente para a geração Z, atuando como ferramenta de enfrentamento à evasão escolar e ampliando o engajamento dos estudantes com conteúdos socioambientais. Para Arnaut, esse é um dos principais diferenciais do jogo. “O Flora favorece debates importantes do nosso cotidiano, com temas de relevância não apenas acadêmica, mas global. Além de conscientizar, ele cumpre um papel educativo ao tratar da preservação ambiental de forma envolvente”, afirma.
Em projeto piloto realizado em escolas públicas, mais de 100 estudantes utilizaram o Flora como apoio em disciplinas como Ciências, Geografia e Ética. Relatos de professores indicaram maior participação em sala de aula, e 95% dos alunos avaliaram a experiência como divertida e informativa. Além do impacto educacional e cultural, o jogo apresenta forte aderência aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, principalmente à ODS 15 – Vida Terrestre, contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes desde cedo.
Proteção intelectual e continuidade da solução
A consolidação do Flora como tecnologia educacional contou com a atuação do Núcleo de Inovação Tecnológica do IFBA, por meio do Departamento de Inovação (DINOV). Segundo Marcelo Santana, chefe do DINOV, o diferencial do projeto está na forma como a propriedade intelectual foi estruturada.
“O NIT teve um papel estratégico em todo o ciclo de inovação do Flora, orientando a equipe desde o início sobre a importância da proteção legal e gerenciando o processo de registro do software no INPI, assegurando segurança jurídica, autoria institucional e liberdade para licenciamento para fins educacionais”, afirma.
De acordo com Santana, a estratégia de transferência priorizou impacto social e alcance. “Conduzimos a elaboração dos termos de licenciamento e viabilizamos que o jogo fosse disponibilizado gratuitamente para escolas, permitindo sua adoção como ferramenta pedagógica”, explica. Para o gestor, o projeto exemplifica uma visão ampliada de inovação, pois “foi enquadrado como um ativo de propriedade intelectual de impacto socioambiental, priorizando disseminação ampla e uso educacional”, afirma.
Além do impacto imediato na sala de aula, o Flora foi concebido com uma arquitetura técnica e metodológica replicável, com potencial para adaptação a outros temas estratégicos e adoção em diferentes redes públicas do país. Professor France Arnaut destaca que o reconhecimento no Prêmio FORTEC atesta o êxito do projeto. “O prêmio reconhece o esforço dos discentes e reforça o valor acadêmico e social que nasce dentro do IFBA com foco na transformação social. É um incentivo para continuar orientando projetos que aproximam tecnologia e cidadania”.
Ao combinar tecnologia, narrativa e propósito, o Flora evidencia o potencial da universidade pública para transformar educação em experiência e projetar soluções nacionais no crescente mercado de edutainment com impacto social e ambiental.

