Por Nayara Campos
No Brasil, cerca de 20 milhões de pessoas vivem com diabetes, segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes. A doença crônica está associada a complicações graves, como feridas nos pés. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 25% dos pacientes diabéticos desenvolvem algum tipo de ferida ao longo da vida e mais de 30% desses casos evoluem para úlceras, podendo resultar em amputações e até óbito, cenário que impõe desafios clínicos, sociais e econômicos significativos ao sistema de saúde.
Foi diante dessa realidade que pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram a marca mista RAPHA®, equipamento médico com fabricação 100% brasileira, que reúne diferentes tecnologias para o tratamento de úlceras em pés diabéticos. Com eficácia comprovada em ensaios clínicos, a solução combina biomateriais naturais, fototerapia e monitoramento da pressão plantar em um protocolo terapêutico integrado.
Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa, professora do Grupo de Engenharia Biomédica da UnB, que coordenou o desenvolvimento da tecnologia, explica que a motivação para o projeto veio de uma demanda concreta da prática clínica, com o objetivo de criar um protocolo simples e reprodutível.
“O RAPHA® nasceu da necessidade real de oferecer tratamentos eficazes para feridas crônicas do pés diabéticos, uma das principais causas de amputações no Brasil”. Rosa destaca que “a pesquisa teve início em 2005, quando se descobriu que o látex natural possuía propriedades angiogênicas, permitindo desenvolver um dispositivo capaz de acelerar a cicatrização, reduzir infecções e prevenir amputações”, afirma Rosa.
Registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) sob o número 940789884, a marca mista RAPHA®, cujo nome significa “cura” em hebraico, venceu o Prêmio FORTEC na modalidade Design Industrial ou Marca, concorrendo pela região Centro-Oeste.
Segundo Rosa, “a forma da marca remete a espectro de luz em processo circular, simbolizando renascimento e regeneração tecidual, e a cor vermelha correspondente ao comprimento de onda utilizado pela fototerapia LED do dispositivo”. A professora explica que “esses elementos juntos comunicam a essência do RAPHA®: cura, simplicidade, transformação e inovação translacional brasileira”.
Impactos da solução
O RAPHA® é formado pela combinação de tecnologias que precisam ser utilizadas de forma integrada para obter o resultado pretendido. Entre elas estão a patente “Palmilha sensorizada para pés diabéticos” (PI 1103691-5), concedida em 2021, o know-how associado a esse dispositivo e o pedido de patente “Adesivo microperfurado fabricado em látex associado a fontes luminosas do tipo LED” (BR 10 2016 019963 8), depositado em 2016.
As palmilhas sensoriais monitoram a pressão plantar e auxiliam na regeneração dos tecidos, enquanto os adesivos de látex com LEDs emitem diferentes comprimentos de onda capazes de ativar processos cicatriciais e antibacterianos. Já o sistema móvel de fototerapia reduz a carga bacteriana, acelera a neoformação tecidual e melhora a circulação sanguínea, permitindo a recuperação total das feridas.
A eficácia da tecnologia foi comprovada em testes clínicos aprovados pelo Sistema de Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), a partir de um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, que possibilitou a realização de testes clínicos em quatro hospitais da rede pública de saúde do Distrito Federal.
Na ocasião, foi comprovada a eficácia do equipamento com mais de 200 pacientes que tiveram cicatrização completa das feridas em menos de 90 dias, evitando agravamentos, amputações e longas internações hospitalares. Além dos benefícios clínicos, o tratamento é menos invasivo e contribui para a melhora da qualidade de vida dos pacientes.
A transferência da tecnologia para o setor empresarial ocorreu por meio de contratos firmados em 2022 entre a UnB e a empresa Life Care Medical Indústria e Comércio. Foram celebrados contratos de licenciamento de patente, licenciamento de marca e transferência de know-how, estabelecendo os direitos de uso e exploração comercial do RAPHA®. O acordo prevê o pagamento de royalties para a universidade, a partir de 2026, sobre a receita líquida e a doação inicial de 50 kits RAPHA® para ambulatórios do Distrito Federal, na fase de testes, ampliando o acesso ao tratamento no sistema público.

Para Manoel Clemente Isidoro, diretor da Life Care Medical, a decisão de investir no licenciamento foi também pessoal. “O RAPHA® nos deu uma motivação especial, pois diretores da empresa tiveram familiares e amigos que sofreram com essa doença. Conscientes da gravidade do pé diabético e da oportunidade de lançar um produto capaz de dar melhor qualidade de vida aos pacientes, decidimos investir no licenciamento”, afirma.
Segundo Isidoro, o processo reforçou a cultura de inovação da empresa, pois “evidenciou o grande potencial das tecnologias desenvolvidas em universidades brasileiras e a necessidade de parceria para aplicá-las ao mercado”. Para o empresário, a colaboração também “mostrou que pesquisadores estão dispostos a colaborar com empresas, algo essencial para viabilizar certificações junto ao Inmetro e à Anvisa e para adotar uma visão mais aberta e cooperativa de inovação”.
A tecnologia está em fase final de preparação para submissão à ANVISA pela Life Care Medical e a entrada no mercado depende da aprovação regulatória final. Segundo Isidoro, “o equipamento poderá ser facilmente integrado ao SUS com muitas vantagens econômicas”.
Proteção intelectual, transferência e papel do NIT
A estruturação da proteção intelectual e da estratégia de transferência do RAPHA® contou com a atuação do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT), por meio da Agência de Comercialização de Tecnologia (ACT) da UnB. De acordo com Lívia Araújo, coordenadora da ACT, a opção pelo registro da marca foi central para garantir sustentabilidade à transferência no longo prazo.
“A marca RAPHA® foi cuidadosamente pensada para assegurar e fortalecer as estratégias de transferência de tecnologia que o CDT e a equipe de pesquisadores desenharam para viabilizar a chegada desse conjunto ao mercado”, explica.
Conforme ressalta a gestora, como o equipamento envolve patentes concedidas, pedidos de patente em andamento e know-how, o CDT orientou os pesquisadores a estruturarem uma marca que representasse o conjunto tecnológico. “Isso facilitou a comunicação com possíveis parceiros, com o público-alvo e agregou valor ao produto final oferecido às empresas”, afirma.
Além disso, o CDT desempenhou papel essencial na trajetória do RAPHA®, atuando na gestão da propriedade intelectual, na prospecção e valoração da tecnologia, na negociação dos contratos de licenciamento, no acompanhamento técnico e regulatório junto à Anvisa e ao Inmetro e na articulação institucional com o sistema público de saúde.
Para Araújo, o caso ilustra a importância dos NITs no ecossistema nacional de inovação. “Não existe desenvolvimento econômico e tecnológico sem educação. O papel das universidades é primordial, assim como os instrumentos de transferência de tecnologia. Isso evidencia a importância dos NITs no Brasil e o impacto do Prêmio de Inovação do FORTEC”, destaca.
Ao integrar ciência, marca, propriedade intelectual e transferência de tecnologia, o RAPHA® demonstra a capacidade da universidade pública de transformar conhecimento em cuidado. Com eficácia clínica comprovada e impacto social direto, a solução aponta novos caminhos para que a inovação em saúde chegue ao sistema público, ampliando o acesso ao tratamento e reafirmando o papel da pesquisa brasileira na melhoria da qualidade de vida da população.

