Tecnologia da Unicamp viabiliza primeira gordura de baixo teor de saturados da indústria brasileira

Resultado de parceria com a multinacional Cargill, solução rompe barreira técnica histórica na indústria alimentícia e abre caminho para produtos mais saudáveis

Por Nayara Campos

O aumento do colesterol está entre os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do Ministério da Saúde, 4 em cada 10 adultos têm colesterol alto, e 25% das crianças brasileiras também apresentam níveis elevados. De acordo com a pasta, esse cenário está relacionado a padrões genéticos, mas também a hábitos alimentares como o consumo elevado de gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados.

A busca por alternativas de gorduras mais saudáveis, capazes de manter o desempenho tecnológico dos alimentos, é um desafio para a indústria. Essa realidade impulsionou pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a iniciarem pesquisas para o desenvolvimento de gorduras estruturadas com baixo teor de saturados, capazes de manter textura e estabilidade sem recorrer às formulações tradicionais de alto teor de gordura.

As pesquisas realizadas pelo Dr. Renato Grimaldi e pela Prof. Dra. Lireny Aparecida Guaraldo Gonçalves, do Laboratório de Óleos e Gorduras, FEA resultaram na patente BR102014012953-7, concedida em 2018, em cotitularidade entre a Universidade e a multinacional Cargill, com extensão para países estratégicos como os Estados Unidos (US20170112159), Espanha e outras nações da América Latina.

Hoje licenciada para Cargill e aplicada em formulações de biscoitos, recheios, chocolates, sorvetes e produtos de panificação, a tecnologia venceu o Prêmio FORTEC na modalidade “Patente Concedida ou Pedido de Patente”, concorrendo pela região Sudeste.

Impactos da tecnologia

Segundo Grimaldi, “a ideia do desenvolvimento foi criar uma gordura com baixo teor de saturados, no máximo 35%, valor bem abaixo daqueles observados no mercado, e que pudesse contribuir com um produto de maior saudabilidade”. Como resultado, os pesquisadores conseguiram reduzir o teor de saturados mantendo estabilidade térmica, estrutura e tempo de prateleira comparáveis aos produtos convencionais.

“A tecnologia foi um marco dentro do mercado de gorduras na época, pois apresentou um desempenho estrutural superior aos produtos já existentes”, afirma Grimaldi, que destaca ainda que o êxito permitiu que a indústria incorporasse formulações mais saudáveis sem alterar processos, máquinas ou padrões de qualidade, elementos decisivos para adoção em larga escala.

A tecnologia resultou em duas linhas comerciais da Cargill, Lévia+e e Lévia+c, aplicadas em produtos amplamente consumidos no país e com impacto direto no padrão nacional de ingestão de gorduras saturadas. Joseane Marchi, Food Latam e Líder na categoria de Panificação, Salgadinhos e Cereais da Cargill explica que a empresa identificou uma sinergia imediata entre a demanda da indústria e o que saía dos laboratórios da Unicamp.

De acordo com Marchi, essa busca industrial se alinhava ao movimento internacional de reformulação nutricional. “Consumidores exigiam redução de gorduras saturadas e trans, e o setor de alimentos precisava de soluções que mantivessem sabor, estabilidade e custo competitivo”.

A representante ressalta que “a linha Lévia+e é 100% lipídica, sendo a única solução do mercado que apresenta a mesma estrutura física de uma gordura tradicional em consistência e textura, com níveis de gorduras saturadas significativamente menor”. Marchi explica ainda que houve comprovação científica, em testes laboratoriais e de produção, de que “seu teor de saturados pode variar de 25 a 35%, dependendo da aplicação, enquanto que as diferentes soluções existentes no mercado possuem valores que variam entre 45% e 65%”.

Proteção intelectual e continuidade da tecnologia

A parceria Unicamp–Cargill é hoje uma das mais longevas da Universidade, já rendeu reconhecimentos nacionais e internacionais, e começou em meados dos anos 2000, quando a empresa buscava alternativas para substituir a gordura trans em recheios de biscoitos. O primeiro acordo, firmado em 2007, deu origem a uma solução posteriormente transferida para produção industrial.

A colaboração avançou e, em 2012, a Universidade apresentou o novo desafio que renderia o desenvolvimento da tecnologia premiada pelo FORTEC. A solução gerou royalties para a instituição, apoiando a expansão de laboratórios, infraestrutura e equipamentos da FEA, a manutenção das ações estratégicas da Inova Unicamp voltadas à inovação e ao empreendedorismo na Unicamp e o reconhecimento ao trabalho dos inventores.

A atuação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Universidade foi decisiva para consolidar a trajetória do invento e parceria com a empresa. Iara Ferreira, coordenadora de Negócios e Inovação da Agência de Inovação Inova Unicamp, explica que a Agência participou de todas as etapas do processo de proteção e licenciamento. “A Inova Unicamp teve um papel crucial e contínuo, atuando desde a fase pré-proteção da tecnologia até o presente momento, no acompanhamento pós-contrato e garantindo sua eficiente chegada ao mercado”.

Segundo Ferreira, a Agência foi responsável por garantir a redação adequada do pedido de patente, conduzir o processo internacional de extensão de proteção, negociar o contrato de licenciamento exclusivo com a Cargill e acompanhar o desempenho comercial da tecnologia, que já apoia operações da empresa em mercados internacionais, ampliando seu alcance para além do Brasil.

A coordenadora reforça que o destaque no Prêmio FORTEC é um reconhecimento importante para a Universidade, pois a “conquista serve como a validação máxima do modelo de proteção de propriedade intelectual e transferência de tecnologia da Inova Unicamp. Ao ser premiada, a patente prova que a Agência cumpriu sua função essencial: transformar uma solução de laboratório em um produto comercial de sucesso”, ressalta.

Para Grimaldi, o destaque no Prêmio FORTEC reforça o papel da inovação científica como vetor de impacto social. “A conquista de um prêmio tão importante é combustível para novos desenvolvimentos, que possam contribuir com produtos mais saudáveis no mercado”, reforça.

Ao romper uma barreira técnica histórica e permitir a reformulação nutricional de milhares de produtos em escala industrial, a tecnologia da Unicamp demonstra o poder da ciência aliada à propriedade intelectual e à cooperação com a indústria. Essa combinação transforma desafios de saúde pública em soluções acessíveis e abre caminho para que a inovação saia do laboratório, ganhe escala e provoque mudanças duradouras na forma como o país produz e consome alimentos.

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