Por Nayara Campos
A violência contra a mulher segue como um dos principais desafios sociais do país. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, conduzida pelo Instituto DataSenado, indica que 88% das mulheres já sofreram ao menos algum tipo de violência psicológica ao longo da vida. Diante desse contexto, iniciativas que vão além da resposta legal e investem em educação e prevenção ganham relevância.
Foi a partir dessa necessidade que nasceu o Mariazinha da Penha, jogo educativo digital desenvolvido no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) para conscientizar adolescentes e jovens sobre os tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha.
Criado por professores e estudantes do curso superior de Tecnologia em Jogos Digitais, o software utiliza a linguagem dos jogos digitais para tratar de um tema sensível de forma acessível, lúdica e informativa. A solução foi desenvolvida no âmbito de um projeto de iniciação científica, com financiamento externo por meio de bolsa da agência CNPq, e venceu o Prêmio FORTEC, na modalidade Programa de Computador (Software), concorrendo pela região Nordeste.
O software foi desenvolvido na engine Unity, uma plataforma amplamente utilizada para criação de jogos digitais, que permite integrar programação, design visual e narrativa interativa. Para garantir segurança jurídica à autoria institucional e viabilizar sua ampla disseminação como ferramenta educacional gratuita, a tecnologia foi registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) como programa de computador, em dezembro de 2020, sob o número BR512022000851-3.
Segundo Luiz Machado, professor e coordenador do Curso Superior em Jogos Digitais do IFBA, a motivação para o desenvolvimento do software surgiu da convicção de que a tecnologia pode contribuir com impacto social positivo. “Sempre trabalhei com computação aplicada, pois acredito que a tecnologia pode ser uma ferramenta útil para enfrentar problemas reais. Este jogo surgiu, infelizmente, em resposta ao alto índice de violência contra a mulher”, afirma. Para o docente, a escolha por uma abordagem lúdica foi estratégica. “Pensamos em desenvolver um jogo leve e infantil, que pudesse contribuir para a conscientização das pessoas desde a infância, a partir dos oito anos de idade”, explica.
Impactos da tecnologia
No Mariazinha da Penha, o jogador percorre diferentes fases que simulam situações do cotidiano, sendo convidado a identificar os cinco tipos de violência contra a mulher previstos na Lei nº 11.340/2006: violência física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. A dinâmica combina narrativa, quizzes interativos e desafios que estimulam a reflexão e o aprendizado de forma progressiva.
O software é disponibilizado gratuitamente e tem sido utilizado como suporte didático em escolas, oficinas e ações de sensibilização em comunidades, contribuindo para ampliar o acesso ao conhecimento jurídico e fortalecer a consciência cidadã desde cedo. Além do impacto educacional, a iniciativa também busca enfrentar a subnotificação de casos de violência doméstica, ao informar jovens sobre seus direitos e os mecanismos de proteção existentes.
Para Machado, “a convergência digital é uma realidade da qual não retrocederemos. Por isso, alinhar a tecnologia ao tratamento de temas sérios é sempre benéfico”. O professor destaca ainda que o reconhecimento do projeto reforça a importância de iniciativas com propósito social. “A tecnologia pode mudar a vida das pessoas, e o [reconhecimento] no Prêmio FORTEC representa que estamos no caminho certo e que não devemos desistir”, ressalta.
Além do uso em contextos educacionais, o jogo já foi apresentado no Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital (SBGames), principal evento da área no país, em que foi reconhecido como exemplo de jogo sério com relevância social, ampliando a visibilidade da iniciativa no meio acadêmico e tecnológico.
Proteção intelectual e continuidade da solução
A trajetória do Mariazinha da Penha contou com a atuação estratégica do Núcleo de Inovação Tecnológica do IFBA, vinculado ao Departamento de Inovação (DINOV). Segundo Marcelo Santana, chefe do departamento, a proteção da propriedade intelectual foi um passo fundamental para assegurar o alcance e a credibilidade do projeto.
“O NIT desempenhou um papel estratégico no sucesso da iniciativa. Realizou todo o processo de proteção da propriedade intelectual, conduzindo o registro do software no INPI e garantindo segurança jurídica para os autores e para a instituição”, explica Santana. De acordo com ele, essa estruturação permitiu que o jogo fosse amplamente utilizado como ferramenta educacional.
Além da proteção, o NIT também atuou na estratégia de transferência da tecnologia. “Estruturamos a disponibilização pública e gratuita do jogo por meio da plataforma institucional Integra, viabilizando sua transferência tecnológica para uso educacional em larga escala”, afirma. Para o gestor, essa atuação reforça o papel da propriedade intelectual como instrumento de impacto social. “O projeto demonstra que a propriedade intelectual pode ser instrumento de cidadania, impacto social e promoção dos direitos humanos”, destaca.
Ao transformar a Lei Maria da Penha em uma experiência educativa interativa, o Mariazinha da Penha evidencia como soluções digitais desenvolvidas em instituições públicas podem responder a problemas sociais urgentes. Ao unir educação, tecnologia e propriedade intelectual, o projeto contribui para a formação de jovens mais informados, críticos e conscientes, reforçando o papel da inovação pública na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

