Por Nayara Campos
A demanda crescente por alternativas ao couro de origem animal e aos materiais derivados do petróleo abriu espaço para pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campus de Ponta Grossa, explorarem soluções mais sustentáveis. Durante o Trabalho de Conclusão de Curso de um aluno de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, surgiu o biotecido à base de micélio, um material flexível, biodegradável e produzido a partir de micélio cultivado sobre resíduos agroindustriais, como milho, serragem e bagaço de cana.
Vencedora do Prêmio FORTEC 2025 na categoria Patente Concedida ou Pedido de Patente, concorrendo pela região Sul, a inovação utiliza o micélio — estrutura vegetativa dos fungos formada por hifas finas e interligadas — que cresce como uma rede natural capaz de unir e consolidar resíduos agrícolas. Esse conjunto de filamentos forma uma espécie de tecido moldável, servindo como matriz para a produção do material ecológico que transforma resíduos em uma solução sustentável com potencial de aplicação industrial. O processo deu origem à spin-off Fungi Biotecnologia Ltda (Mush), fundada em 2019, e, posteriormente à Muush, sendo as duas empresas formadas por ex-aluno e ex-professor inventores e por Antônio Carlos de Francisco, professor aposentado da UTFPR e CEO da Muush.
Impactos da solução
O biotecido à base de micélio apresenta reduções expressivas de impacto ambiental quando comparado ao couro bovino e a materiais sintéticos derivados de petróleo. Estudos conduzidos pela spin-off indicam pegada hídrica até 99% menor e emissões de carbono entre 55% e 95% mais baixas, dependendo da aplicação.
“O Brasil gerou mais de 900 milhões de toneladas de resíduos agrícolas em 2023, e em 2030 a previsão é ultrapassar um bilhão de toneladas. Identificamos a oportunidade de utilizar esses resíduos como matéria-prima para o biotecido. Isso significa que não são mais necessários a disponibilidade de grandes áreas de terra, utilizando uma menor quantidade de água e pesticidas”, ressalta Francisco.
De acordo com o inventor, a tecnologia também se destaca pela capacidade de adaptação a diferentes formatos, densidades e texturas. “A partir de um mesmo processo, podemos gerar materiais com formatos e propriedades customizáveis para diferentes mercados”, destaca. Essa versatilidade tem impulsionado aplicações em moda, calçados, decoração, setor automotivo, construção civil e embalagens. Em 2020, por exemplo, a Mush lançou a Coleção Íris, linha de painéis acústicos produzidos com micélio, ampliando o leque de usos do material.
Para Carina Rau, diretora da Agência de Inovação da UTFPR, o avanço do biotecido tem impactado diretamente nas agendas ambiental e social, uma vez que o desenvolvimento conduzido pela Mush demonstra como a biotecnologia pode regenerar ecossistemas e melhorar a qualidade de vida.
“A Mush entrega soluções que regeneram o meio ambiente enquanto geram valor econômico. O aproveitamento de resíduos agrícolas para criar biotecidos carbono neutro e compostáveis representa o estado da arte na bioeconomia”, afirma. Ela completa que a “mais do que conscientizar, a Mush valida a sustentabilidade como um modelo de negócios tangível e atual. A tecnologia deles deixa claro que a preservação ambiental, integrada a produtos de excelência, é um excelente caminho para o desenvolvimento industrial atual”.
Propriedade intelectual e transferência de tecnologia
A invenção foi protegida por patente (BR 10 2022 009786 0) depositada em 2022, em cotitularidade entre a UTFPR e a Mush, à época incubada na SprinT, incubadora ligada à Agência de Inovação da UTFPR. Em 2023, o pedido foi concedido pelo INPI no âmbito do programa Patentes Verdes, destacando o potencial ambiental da tecnologia. Já no ano de 2024, a spin-off apresentou proposta para aquisição dos 50% pertencentes à universidade, assumindo integralmente a titularidade da patente.
Rau explica que o processo foi planejado desde o início com perspectiva de transferência. “O NIT do campus Ponta Grossa orientou sobre a concepção e operação da estratégia de proteção da Propriedade Intelectual, em cotitularidade com a empresa incubada na SprinT, já pensando na posterior transferência”. O acordo garantiu autonomia para a spin-off escalar a produção, buscar novos mercados e ampliar parcerias industriais.
Francisco destaca que a proposta da Mush vai além da criação de um novo material, e aponta para uma mudança estrutural na forma para desenvolver bens de consumo. “A Mush representa um novo modo de se produzir bens de consumo no país, aliando o aproveitamento de resíduos agroindustriais e a biotecnologia na produção de bens duráveis e biodegradáveis que são capazes de substituir materiais de origem não-renovável”.
Ao transformar resíduos agrícolas em materiais de alto valor agregado e consolidar um processo de pesquisa, proteção, transferência e empreendedorismo, o caso mostra como a inovação universitária pode gerar soluções que mudam setores inteiros. A tecnologia evidencia o potencial do país para desenvolver materiais sustentáveis em escala e reforça que ciência, indústria e meio ambiente podem caminhar juntos, abrindo caminho para que o Brasil avance como referência na construção de novas cadeias produtivas de baixo impacto.

