Software de titularidade da UFSM é referência em gestão universitária no Brasil

Com implantação em dez instituições públicas, sistema da UFSM tornou-se referência na integração de processos administrativos, financeiros e acadêmicos no ensino superior

O Sistema de Informações para o Ensino (SIE), de titularidade da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem sido a solução de um problema recorrente em instituições públicas de ensino superior: a falta de sistemas integrados capazes de atender, de forma consistente, rotinas acadêmicas, administrativas e financeiras.

Criado em 2001 por servidores do Centro de Processamento de Dados da UFSM, com recursos próprios da universidade, o software consolidou-se como um ERP completo para universidades, foi implantado em dez instituições federais e venceu o Prêmio FORTEC na modalidade “Programa de Computador (Software)”, concorrendo pela região sul do Brasil.

Aldiocir Dalla Vecchia, engenheiro e servidor aposentado da UFSM, foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema, junto com Fernando Bordin da Rocha, também aposentado. O profissional explica que o ponto de partida para a criação do SIE foi a necessidade de superar limitações operacionais e tecnológicas enfrentadas pelas universidades.

Segundo Dalla Vecchia, “por longos anos, as universidades públicas enfrentaram limitações decorrentes de sistemas de informação ineficazes, agravadas pela dificuldade de contratação e manutenção de especialistas em informática”. O contexto levou a UFSM a estruturar uma equipe técnica dedicada ao desenvolvimento de sistemas voltados às rotinas universitárias, com infraestrutura institucional e um modelo de sustentação baseado em implantações externas.

Impactos da solução

Ao adotar banco de dados integrado e normalizado, o SIE eliminou redundâncias e possibilitou consistência de informações, automação de processos e participação direta das unidades responsáveis por cada área. Dalla Vecchia destaca que, na época da criação, “essa tecnologia representava o que havia de mais avançado”. A flexibilidade permitiu que o sistema evoluísse para contemplar desde módulos acadêmicos até gestão patrimonial, financeira, de frota, de recursos humanos e, em alguns casos, automação hospitalar.

À medida que outras instituições passaram a buscar soluções integradas compatíveis com as demandas de gestão do setor público, a disseminação do software pelo país ocorreu de forma natural. Atualmente, o SIE está implementado em universidades e institutos federais, como Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Universidade Federal do Tocantins (UFT), Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Universidade Federal do Acre (UFAC), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), o Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) e a própria UFSM.

Letícia Cruz, professora e chefe do Núcleo de Propriedade Intelectual, vinculado à Coordenadoria de Transferência de Tecnologia e Propriedade Intelectual da Pró-Reitoria de Inovação e Empreendedorismo (PROINOVA) da UFSM, chama atenção para o retorno econômico gerado à UFSM por meio do licenciamento firmado com a empresa AVMB – Consultoria e Assessoria em Informática Ltda, da qual Aldiocir Dalla Vecchia é diretor. De acordo com Cruz, “a UFSM já recebeu, entre 2015 e 2025, mais de R$ 1,78 milhão em royalties. Somente no período de 2020 a 2025, foram arrecadados cerca de R$ 1,07 milhão”.

Proteção intelectual, continuidade da tecnologia e impactos gerados

Segundo a professora, para levar o SIE para a comunidade, “o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) desempenhou papel estratégico na proteção, gestão e transferência da tecnologia”, incluindo o registro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e a negociação dos contratos de licenciamento com a AVMB, responsável pela manutenção corretiva, evolutiva e legal do sistema
Neste contexto, o NIT da UFSM atuou para garantir a exploração da tecnologia sem perda de titularidade e para consolidar a cultura de propriedade intelectual dentro da universidade. Além disso, o apoio jurídico e administrativo contribuiu para que o SIE se mantivesse ativo ao longo dos anos e continuasse sendo atualizado conforme as exigências legais e tecnológicas.

A trajetória do software também gerou impacto local ao contribuir para o surgimento de outras iniciativas tecnológicas. Dalla Vecchia ressalta que “o SIE representou o ponto de partida para sistemas de grande porte na região, resultando na retenção de talentos locais, avanços tecnológicos e incentivo ao surgimento de empresas startups”.

Ampliando o ecossistema de impacto, Cruz observa que o software demonstra como a articulação entre servidores técnicos, NIT e parceiros externos pode resultar em soluções consolidadas e de longa permanência no ecossistema público. “Quando a pesquisa acadêmica se transforma em produtos, processos ou serviços que chegam à população, ela impulsiona cadeias produtivas, fortalece a competitividade regional e nacional e contribui para o desenvolvimento sustentável”.
Neste cenário, a professora acredita que “iniciativas como a proteção da propriedade intelectual, a transferência de tecnologia e o apoio a startups e empresas nascentes são fundamentais para ampliar esse impacto e consolidar a universidade como agente de transformação econômica e social”.

Para Cruz, o reconhecimento nacional obtido pelo sistema no Prêmio FORTEC fortalece o posicionamento da UFSM no campo da inovação e propriedade intelectual, e evidencia o papel da universidade na geração de soluções tecnológicas de impacto. “Essa conquista evidencia a criatividade, o comprometimento e o esforço coletivo dos servidores envolvidos no desenvolvimento e na gestão do SIE, reforçando a capacidade da UFSM de gerar soluções tecnológicas de alto impacto”, destaca.

A vitória do prêmio também é vista pela professora como um destaque para a atuação do NIT, uma vez que “reafirma o papel estratégico da PROINOVA na promoção da cultura de proteção, valorização e transferência do conhecimento produzido na instituição”.

Com mais de duas décadas de operação, o software é um caso representativo de solução criada dentro de uma universidade pública, transferida ao mercado e mantida em contínua evolução, articulando eficiência administrativa, padronização e sustentabilidade econômica para instituições brasileiras de ensino superior.

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